sábado, 31 de outubro de 2009

ANTES DA NAZARÉ (7)





- O tempo passou a fugir. Já é quase meio-dia. Ainda temos que ir buscar a carroça e o animal que deve ter sede.
-Bem, madrinha. Tem mesmo que ser, mas agora já não ando tão amargurado pois sei que a madrinha está bem.
-Amanhã, se Deus quiser, vou à missa da Pederneira...
-Vai sim filho! - disse a madrinha com um sorriso. Vai sempre e pede a Deus saúde para todos nós e sorte para ti, que o que eu quero mais é que tu sejas feliz e tenhas sorte!
Adeus meus queridos, muito obrigada pela vossa visita e até sábado se Deus quiser.
-Agora fico ansiona que cheguem os sábados.
Tenho que começar a pensar muito seriamente no futuro deste menino, eu não tenho mais ninguém e sei que eles me estimam.
No domingo de manhã a mãe já tinha toda a venda apanhada nos cestos, o feijão e o grão nas sacas e as batatas numa saca de sarapilheira, tudo em ordem para carregar. Quando chegou ao quarto do filho, ele ainda dormia.
-João!... Anda filho, levanta-te, senão fica para muito tarde. Ainda tens que te lavar e fazer a barba e tu queres à missa.
-Pois é. É já... Não sei como adormeci?
Ainda temos que carregar a carroça.
Olha, o café já assentou, já tirei o leite das cabras e já o fervi. Queres que a mãe to tire, já que não gostas de nada a ferver?
-Olhe, pode ser, mãe, para a gente se despachar mais depressa.
Foi só beber o café com leite e umas filhoses que a mãe de vez em quando fazia, pois só cozia pão uma vez por semana, e o joão não estava acostumado a comer pão duro e, era um miminho que ela fazia ao seu menino. Tinha farinha, abóboras e azeite. Também tinha açúcar e canela numa latinha. Não custava nada... ele era o melhor filho do mundo! Merecia tudo. Num instante carregaram a carroça e se puseram a caminho. Chegaram à Pederneira.
Já começava a passar gente para a missa.
João tirou os cestos da carroça e a saca das batatas. A mãe tirou as sacas pequenas e o resto das coisas e o João perguntou:
-A mãe arruma a venda que eu vou guardar o animal e a carroça e vou logo direito à missa?
-Arrumo sim, filho! Vai com Deus.
Foi num instante. Ele queria entrar cedo para a igreja para escolher um lugar a seu jeito e assim aconteceu. Quando o Sr. Manuel Cipriano e a família entraram, já o João tinha escolhido o seu lugar mesmo em frente. A Laura, espertíssima, assim que o viu, olhou para a sua menina, para ver a reacção. Ninguém lhe tinha dito nada... Mas, aquela lágrima... Ela lhe ter dito que antes queria casar pobrezinha e ser feliz, do que com aquele monstro do Fonfon...
Calculou logo que eram aqueles olhos negros, aquela figura linda que ela vira na igreja no domingo passado. Viu os olhares dos dois e o sorriso maravilhoso daquele jovem que, olhou para ela, e riu-se também.
Não tinham gostos nada estragados... Nem um nem outro.
A partir daí, já nada lhe passou despercebido. Quando saíram da missa, Laura disse à patroa:
-Eu vou já para casa, tenho que ir ali.
-Está bem, mas não te demores.
-Não. Não me demoro nada.
Laura esperou que ele saísse e, seguiu-o.
Viu que ele tomava o caminho do mercado e pensou:
-Deve ser daqui perto.
Nisto sentiu de repente umas mãos a taparem-lhe os olhos. Era o Raúl, que só para a ver, tinha ido ver a saída da missa e achou muito estranho ela não seguir os patrões e, mesmo ali, ela teve que lhe explicar o que se passava.
Ela, ao desprender-se das mãos dele disse:
-Estragaste tudo. Eu vinha a seguir o tal rapaz que eu estou desconfiada que a minha menina gosta dele e ele dela, e, agora, não sei para onde ele foi...
-Então anda daí que a gente vai ver os dois, anda depressa.
-Olha! Vai ali. - quase gritou a Laura.
-Aquele? É do Casal Mota. É filho da Ti Natália. Aquela que está ali a arrumar aqueles cestos. Queres que eu lhe pergunte alguma coisa? Que lhe diga que tu és criada dela e que és de toda a confiança, se ele lhe quer mandar algum recado? Que tu desconfiaste pelos olhares deles, que se gostavam em segredo?
-Eu sei lá?
-É próprio das nossa idades!
-Como é que eles alguma vez se conseguem falar se não for assim?
-Olha, faz o que quiseres... O menos que me pode acontecer, é o meu patrão se desconfia que eu estou metida nisto... Ralhar, mas não me mata. A patroa é que tem a mania das grandezas e quer que a filha case rica.
-Olha: A riqueza dá-a Deus. Vou falar com ele!...
João!
João!
Desculpa lá eu tar a meter o nariz onde não sou chamado, mas reparei que tu na missa não tiravas os olhos da patroazinha da minha namorada, nem ela de ti. Isto, cá a rapaziada, temos de ser uns para os outros. É um segredo que fica entre nós, que eu também não quero sarilhos. Se quiseres escrever umas palavrinhas e ela leva-lhe, que elas entendem-se muito bem.
-Está bem. Mas eu não tenho papel nem sobrescrito.
-Mas eu vou ali comprar. Vem comigo Laura, para ninguém te ver aqui sozinha.
Foram num instante.
Nem se lembraram com o que haviam de escrever, mas o João tinha uma caneta de tinta permanente, que trazia sempre consigo, pois fora uma oferta da madrinha.
-Como se chama ela?
-"ANA" - Respondeu a Laura.
-Há cada coisa! - disse o João. O meu pai, chamava-se António, a minha mãe, Natália, e a minha madrinha a quem devo milhares de obrigações, chama-se Amália. A empena da minha casa precisa de ser caiada, e eu, para limpar o pincel do alcatrão de calafetar a eira, escrevi as iniciais deles nessas paredes. Precisamente:
ANA.
A minha mãe perguntou-me quem era a Ana, e eu expliquei-lhe as iniciais, até lhe disse que não conhecia Ana nenhuma. O que é o destino?!!!
Bem, seja o que Deus quiser!
Menina Ana
Primeiro que tudo peço mil perdões pelo meu atrevimento. Só hoje soube como se chama, mas, como foi na igreja que pela primeira vez nos vimos, talvez seja Deus que nos queira unir.
Nunca deixei de pensar em si. A sua gentil figura, até os meus sonhos povoa. Dê-me só um pouco de esperança e eu serei o mais feliz dos mortais.
Amo-a
João
Guardou no sobrescrito à pressa, e entregou a Laura, Só em casa se lembrou que nem tinha pago a carta ao namorado de Laura. Laura despediu-se, escondeu a missiva no bolso, disse até logo ao seu Raúl e disse-lhe:
-A gente logo fala, está bem? É que eu disse à patroa que não me demorava nada. Agora digo-lhe que às três horas tenho que estar despachada.
Quando chegou a casa disfarçou o caso, foi despir a roupa com que tinha ido à missa e foi pôr a mesa. Quando apanhou a patroa segura é que foi ao quarto da menina e lhe perguntou se ela tinha lugar para esconder um segredo muito importante.
-Que segredo importante?
-Chiu!... - disse a Laura
Eu corro perigo de vida. Os seus pais se alguma vez sonharem que eu trouxe isto, ou dão-me um tiro, ou enforcam-me.
-Mas isto, o que é?
-Tome. Leia, mas dentro de um livro que é para o fechar logo, se alguém abrir a porta.
Laura entregou-lhe a carta, que Ana abriu a tremer.
-Mas isto é de quem?
-Não sei. Adivinhe...
Ana tremia. O coração saltava-lhe no peito, mas... Como é que alguém adivinhou?
-Como é que ele te deu isto? Eu nem sequer sei como ele se chama...
-Mas ele também não sabia, e escreveu o seu nome na parede da casa dele que é no Casal Mota.
-Mas como é que tu sabes isso tudo?
-Porque os vossos olhares atraiçoaram-vos. Mas não se assuste! Que Nosso Senhor guarda os vossos sentimentos e não diz nada a ninguém. Deus é amor e protege aqueles que se amam.
Eu quando saí da missa fui atrás dele, para ver se descobria quem ele era.
O Raúl veio por trás de mim, tapou-me os olhos e eu quase o perco. Mas encontrei-o logo. O Raúl meteu conversa com ele, perguntou-lhe se ele não era filho da Ti Natália do Casal Mota, e ele disse que sim.
Apresentou-me como namorada dele e ele perguntou-me se eu não era empregada daquela família que ia à missa todos os domingos, pois via-me sempre com vocês.
-Eu disse que já os tinha visto rirem-se um para o outro, se ele quisesse mandar um recado, eu levava. Ele escreveu o que aí está, e aí tem.
Podem confiar em mim e no Raúl.
- continuará...
Os acontecimentos que me têm ocorrido ultimamente, são mais que muitos! Tudo há-de ir ao lugar, a seu tempo... O meu 'jardim' continua a ser remexido (como comentou a luísa 'pin-gente' num post sobre a minha terra, Caldas da Rainha...) e a Nazaré está sempre à minha espera com
todos os amigos e família do coração, e o tempo foge-me pelos dedos, não consigo agarrar todos os barcos e remos!!!
Brevemente vou apresentar a "minha" aldeia, onde vivo, rodeada da natureza, passarinhos, galinhas, patos, ovelhas... e gentes do campo!
Logo vou para o meu "vício", um jogo de hóquei em patins, benfica vs porto... sempre mais emotivo, como é normal e mais ainda agora, depois do último adeus ao joão banza!

22 comentários:

Adolfo Payés disse...

Me quedo esperando la siguiente parte.. me ha dejado con el deseo de saber que pasará...

Un beso

Un abrazo
Con mis
Saludos fraternos..

Que tengas un buen fin de semana...

Mário Margaride disse...

Passei por aqui minha amiga, para te desejar um excelente fim de semana com tudo de bom.

Beijinhos

Mário

Vicktor disse...

Querida Gaivota

É um prazer grande acompanhar esta narrativa que connosco partilhas sobre outros tempos, antes da azaré.

Beijinhos.

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDA AMIGA DO CORAÇÃO... MANINHA ADOREI ESTA NARRATIVA, BELO TEXTO... EU VOU MELHORANDO MUITO DEVAGAR... ESPERO QUE ESTEJAS BEM... FICA COM DEUS...!!!
ABRAÇOS DE AMIZADE,
FERNANDINHA

FOTOS-SUSY disse...

OLA SAO, MARAVILHOSO TEXTO...ADOREI, FICO A ESPERA DE MAIS...QUE TENHAS UM OPTIMO SABADO AMIGA!!!
BEIJOS DE AMIZADE E CARINHO,


SUSY

Paula Raposo disse...

Também espero a continuação. Beijos.

Lena disse...

Ja ca tenho o livrinho dedicado pela a Francelina;
so que ainda não arranjei tempo para o ler...
vou seguindo aqui a historia.

Lindas as fotos !

Beijinhos
e bom fim de semana Gaivota !

GarçaReal disse...

Sempre acompanhando tua excelente narratica e aguardando a continuação.

Bom domingo

bjgrande do Lago

Multiolhares disse...

Isto hoje do benfica não correu nada bem, foi o teu jogo com dois a dois depois o outro dois a zero,os dois deram cabo dos meus meninos
até quarta
beijokas

gaivota disse...

adolfo payés
garcias por tu interés en este romance de una mujer del pueblo!
seguirá, dentro de días...
buen fin de semnaa para ti también
besitos

gaivota disse...

mário margaride
obrigada, mário, e para ti também!
beijinhos

gaivota disse...

vicktor
foram outros tempos, vicktor...
por vezes tão presenets!
beijinhos

gaivota disse...

fernanda&poemas
maninha por aqui... quase igual numas coisas, pior noutras!
que Deus nos ajude, minha querida
beijinhos grandes

gaivota disse...

fotos-susy
obrigada, susy, e um bom domingo para ti e todos os teus
beijinhos

gaivota disse...

paula raposo
há-de vir... istro tem que ser aos poucos, quando não há outros afazeres...
beijinhos

gaivota disse...

lena
pois é, minha querida, mas é muito grandeeeeeeeee, vai demorar!
bom domingo para ti, a nossa praia está lindíssima!
beijinhos

gaivota disse...

garça real
obrigada, um dia destes vai mais um "bocado", é grande este romance...
beijinhos

gaivota disse...

multiolhares
o meu, considerando o eterno rival (!) e não só, não foi muito mau... jogaram bem e o ricardo esteve muito bem!
agora do outro lado... imagino os teus meninos!!!
até 4ª, minha querida
beijinhos

poetaeusou . . . disse...

*
eu tenho dois desamores
e parece que é praga
um é o porto dos stikadores
outro está em Braga . . .
,
pilipares.
.
*

gaivota disse...

poetaeusou
dois amoressssssssssssssss
e eu???
o jogo foi bom, os últimos 15 minutos podiam ter sido diferentes, mas há quem mande...
ai ai ai, braga por um canudo, zé!!!
pilipares

Carminda Pinho disse...

Gaivota,
não conhecia o João Banza. Provavelmente terei passado alguma vez por ele, uma vez que era jogador de hoquei aqui na ADO.
Soube do que aconteceu pelos jornais.
Fiquei triste, e ainda mais assustada. Tenho filhos da mesma idade, ou perto. Muitas são as vezes em que vão com amigos para aquelas bandas de Santos, beber um copo, como costumam dizer.

Esteja onde estiver, que descanse em paz.

Beijos, Gaivota.

gaivota disse...

carminda pinho
o joão só tinha ido este ano para a ADO, tinha 28 anos, foi agredido, caiu mal, partiu e nada o trará de volta, ficou a família destroçada, os amigos e hoquistas no geral e quem tanto o acompanhou por onde andou...
entendo que tenhas o coração aos saltos, quando lá vão eles beber um copo... também por andei por lá há poucos anos com um sobrinho, é muito movimento, tudo pode acontecer, infelizmente!
beijinhos