segunda-feira, 21 de setembro de 2009

ANTES DA NAZARÉ (6)



video

De 14 a 19 de Setembro decorreu no pavilhão municipal da Nazaré o Campeonato Europeu de Patinagem Artística, em vários escalões, individuais femininos e masculinos e em pares. Apenas pude estar presente nos últimos dois dias, pois estar nos Açores e na Nazaré ao mesmo tempo, ainda não está ao meu alcance...

Apresento uma foto dum atleta nosso, e um vídeo de Valter Silva, natural do Valado de Frades, portanto a defender as nossas cores em "casa", ambos juniores, 16/17 anos, sendo que o Valter tinha conquistado um 2º lugar, medalha de prata no fim de semana anterior, num campeonato em França. Pena foi que cá não teve muita sorte nas suas exibições, e os primeiros títulos foram para italianos.

. continuação

A mãe quando viu aquilo, perguntou:

-Quem é essa Ana?

-Qual Ana mãe?

-Olha filho, eu não sei ler muito bem, mas para chega para ver o que lá está escrito.

João, deu uma gargalhada e disse:

-Como se chamava o meu pai?

-António - Respondeu a mãe.

-A mãe, como se chama?

-Natália - Respondeu ela.

-E a minha querida madrinha, que me criou?

-Amália - respondeu ela.

-Então... Eu para limpar o pincel pus as vossas iniciais. De facto deu um nome de mulher ANA. Nem conheço Ana nenhuma!...

-Grandes letras! Avistam-se à légua...

-Tavas a falar na tua madrinha. Também tenho muitas saudades dela, bem calhando vou vender a S. Martinho, para ir lá ver a casa de praia se ela lá tem vindo. E tu, já devias ter escrito para Lisboa, a saber dela.

-Tens razão mãe.

-Pois tenho. Foi a única casa que servi. Nunca fui tratada como criada , quando falavam de mim, era sempre a minha Natália. Quando me casei deu-me todas as coisas que me faltavam e eu não tinha dinheiro para elas. O patrão quis sempre que eu lhes chamasse padrinhos, que quando me casasse seriam eles os padrinhos, se eu quisesse... E foram.

Quando tu nasceste foram os teus padrinhos. Ele faleceu ias tu fazer sete anos, e a tua madrinha, para não ficar sozinha, disse que tu podias lá andar na escola, que era a dois passos da casa dela. Lé estiveste, lá foste criado como um filho e estudaste até ao quinto ano do liceu.

Estavam de férias em S. Martinho quando o teu pai morreu. Já andava doente há muito tempo, mas ninguém pensava que fosse uma coisa tão repentina. Eu fiquei desnorteada que me fartei de gritar: Deixas-me sozinha! Deixas-me sozinha.

Ela entendeu aquilo como ser eu a pedir-lhe que tu voltasses para casa. Mas não foi. Eu tava muito amargurada, ele era aminha companhia, o meu António. Aquele desabafo foi um modo de falar, não fiz por mal.

Eu devo obrigações à nossa madrinha, que nunca lhe pago. Temos mesmo que saber dela. Sabes que os meninos da tua idade andavam na ecola de Famalicão, iam e vinham a pé, com um farnel. Tu foste um menino fino. Isso devemos à madrinha Amália.

-Eu sei, mãe! Nunca me esqueço. Eu fui o filho que ela não teve. Se ela não tiver em S. Martinho, eu vou a Lisboa ver o que se passa.

-Fazes muito bem, filho, é a nossa obrigação. Até se ela quiser estar uns diazinhos aqui com a gente só lhe faz bem a mudança de ares.

No sábado seguinte foram a S. Martinho, Natália apanhou feijão verde, hortaliça de todas as qualidades que tinham, batatas, cebolas, alhos. Uns saquinhos com feijão seco, branco, encarnado e grão. Os ovos que tinham e mais umas coisitas, nomeadamente: salsa, coentros, hortelã. Assim que chegaram ao ponto de venda, o João ajudou a mãe a descarregar tudo e foi guardar a carroça e o burro numa cocheira que havia ali perto e disse:

-A mãe vende isto tudo num instante, e, se eu não vier, é porque a madrinha cá está, guarde alguns miminhos para lhe levar. Não acha bem?

-Olha para ali, não vês que a mãe já trazia o cestinho a fazer conta com isso? Um pãozinho que cozi esta madrugada, umas brindeirinhas, uns ovos muito bem embrulhados, uma saquinha de feijão e outra de grão, e mais umas coisinhas.

-Deus queira que ela cá esteja. Se eu me demorar mais de meia hora, é porque ela está cá.

O mercado fazia-se na parte mais alta da vila. A casa da madrinha era uma vivenda à frente do mar, que já era dos avós. João desceu aquela ladeira, como fazia quando era garoto e vinha da missa. Ao bater à porta ouviu uma voz estranha e asssutou-se! Veio uma muher abrir a porta que ele não conhecia, perguntou:

-A senhora D. Amália está?

-Está sim. A quem devo anunciar?

-Não é preciso anunciar ninguém, e, entrou atrás dela.

A madrinha quando o viu... Nem foi peciso ir ajudá~la a levantá-la.

-Ai o meu rico menino! Ai o meu amor! Ai Joãozinho que eu morro de alegria!!!

Aas lágrimas de cada um molhavam o pescoço do outro.

-Estás tão lindo! Que roupas são estas?

-São roupas de trabalho. No Casal Mota não se anda vestido como em Lisboa!...

-Estás um homem! Então, já tens alguma menina debaixo de olho?

-Olhe madrinha... Eu não contei nada à minha mãe, as vou desabafar com a madrinha, que nunca tive segredos para si!...

-Vá lá. Senta-te aqui ao pé da madrinha, e venham lá esses segredinhos.

-Todos os domingos a minha mãe vai vender à Pederneira e eu ajudo-a a descarregar e deixo-a a vender, vou guardar o burro e a carroça na cocheira e vou à missa, gosto muito de lá ir, que é sempre diferente, a cerimónia é a mesma, mas não é igual às outras missas, onde nós costumávamos ir.

Acontece que há há uma menina, dos seus dezassete anos, que vai sempre com os pais, e sempre acompanhada duma criada. Devem ser muito ricos, pela maneira de vestir e de estar, e também pelos lugares que ocupam. Mas a menina parece mesmo uma princesa. Tem uns cabelos loiros encaracolados sobre os ombros, como se vê nos quadros... já a vi, com um vestido cor do mar e com outro verde. É linda de qualquer maneira, mas na missa eu notei que olhou para mim, que eu até pedi a Deus que me perdoasse e me desviasse a vista daquela visão, que eu sou pobre, não poso ter tais aspirações.

-Olha!... Acabou-se a conversa. Estão a tocar à porta, deve ser a tua mãe, que eu não estou à espera de visitas.

A empregada já tinha ido abrir a porta e a Natália já entrava para a sala. Deixou o cesto à porta do corredor.

-Ai madrinha! Perdoe-me de eu estar aqui sem vir vê-la. A labuta é muita!... O meu António morreu cansadinho... Agora é que eu vejo! O João ajuda-me muito, mas não estava acostumado, coitadinho nunca se queixa.

-De que vale eu queixar-me? A mãe praticamente faz tudo, eu só ajudo nos pesos e dou comer aos bichos.

-Mas tens as mãos todas estragadas!

-Pois tem. O meu rico filho nem parece o mesmo.

-Isto é da erva!

-É verdade!... A madrinha nunca foi ao nosso casal?

-Pois não. Quando os teus pais se casaram eu esperei na igreja de Famalicão, e a boda foi mesmo lá, numa sala que tinha um nome muito engraçado e eu nunca esqueci. Chamava-se a "Estrela do Norte", era uma sala de baile, que era mais pequena a minha sala de Lisboa. As mesas estavam colocadas em U com os convidados sentados de volta e os noivos ao meio. A comida era toda tipo caseiro, feita por uma cozinheira que se chamava Elisa e estava tudo uma maravilha. Os bolos que deram no fim do casamento, também eram tipo ferradura, com um sabor maravilhoso. Soube depois que eram amassados de noite pela juventude, amigos dos noivos. Rapazes e raparigas, tudo ajudava. Era muito bonito. Gosto muito dos costumes das aldeias, é tudo muito natural, todos se conhecem uns aos outros e ajudam-se mutuamente.

-Então estamos em Julho, quando a madrinha se fartar de estar aqui, vai lá passar uns dias no nosso casal - Disse a Natália.

-Querem mesmo que eu vá? Olhem que eu vou! Preciso mesmo quebrar a rotina. Sabes Natália?, Eu, desde que tu saíste para casar, nunca mis tive empregada a tempo inteiro. Tenho pesssoas para me fazer o serviço doméstico, mas nunca mais ninguém, porque medediquei muito, e sofri muito com a vossa ausência. Foi uma coisa junta, tu casares, para mim, foi uma perda muito grande. A seguir foi a morte do teu marido, mas o João preencheu muito aquele vazio. Foi sempre maravilhoso para mim, eu adorava-o e ainda hoje o adoro!

Depois morreu o teu António, o filho era teu, e tu também ficaste sozinha...

Não mo pediste, mas eu não sou estípida e compreendi a situação. Ele tinha mesmo que ficar contigo. Mas olha, Natália, eu não tenho ninguém. Vocês são a minha família, e eu não consigo ver o meu Joãozinho asim! Não foi isto que eu imaginei para o futuro éle.

É verdade, já foste à inspecção? Tu estás mesmo na idade. Tens que ir ver isso, senão... é uma carga de trabalhos! Vais à Junta de Fregiesisa de Famalicão saber como é.

-Ai, madrinha! Ainda foi bom termos vindo aqui, que eu vivo fora do mundo, nem me apercebi que eu vivo fora do mundo, nem que ele cresceu, nem de pelo tempo passar.

-Pois eu dei pelo tempo passar, e muito... Estes quase quatro anos foram para mim quarentena.

O João pôs-lhe a mão por cim dos ombros e abraçou-a. A Natália, quando viu as lágrimas a cair no rosto da madrinha, ficou muito emocionada e, reconheceu que a maneira de ser do seu filho, o devia aquela santa senhora que sem ser do seu sangue, lhes tinha amor.

-Vamos almoçar comigo!

-Olhe madrinha, hoje não pode ser por causa dos animais, mas outro dia calha. Hoje é sábado, amanhã tenho que ir vender à Pederneira, porque tenho lá as coisas que não posso estragar, mas sábado que vem venho cá mais o nosso João, se Deus quiser, trago um coelho já temperado e alface e tomate, deixo o gado tratado e passamos a tarde aqui com a madrinha. Podemos fazer isto todos os sábados, porque até acabar o que está na terra não se pode estragar, que as sementeiras saem muito caras e dão muito trabalho.

-Pois é, filha, eu compreendo issso. Mas tu estás tão escavacada.... Eras tão mimosa...

-Pois era, madrinha... Tinha vinte anos muito estimadinhos... Agora tenho quarenta e um muito mal tratados! Não paro um segundo. O casal ocupa-me o tempo todo! Ao sol, à chuva, ao vento, ao frio. A cavar, a sachar, a apanhar as novidades, mas também é um regalo, a gente ver tudo a crescer lindo, é o produto do nosso trabalho. Aquela terra cria tudo! Era o encanto do meu António e ele tinha razão.

-Também já estás muito presa àquilo, pelo que estou a ver!

-Oh madrinha, então não hei-de estar? A gente vive dali, não tem mais nada!... Dali vem o comer para os animais e para nós. O que se vende dá para o pertóleo, o açúcar, o café, o arroz, massas e mais alguma coisa que seja preciso. De vez em quando mata-se uma cabçeça de criaçaão, tenho duas cabras que nos dão leite, e às vezes faço uns queijinhos. Temos farturinha, graças a Deus, mas é tudo com muito trabalho. Mas sem trabalho nada se faz!

- continua-

24 comentários:

Vicktor disse...

Querida Gaivota

Continuo a deliciar-me com o "Antes da Nazaré"...

Uma maravilha. O espelho de uma época. Mas o "AMOR" de todos os tempos.

Beijinhos.

FOTOS-SUSY disse...

OLA QUERIDA AMIGA, BELISSIMA POSTAGEM, ADOREI ESTA LINDA...QUE TENHAS UMA BONITA TARDE E UMA OPTIMA NOITE. TUDO DO MELHOR PARA TI, FICA COM DEUS...
MUITOS BEIJOS DE CARINHO E AMIZADE!!!


SUSY

Vieira Calado disse...

Enquanto se espera pela continuação,

sempre lhe digo

que o gato do meu poema... somos nós!

Pobres de nós!

Beijoca.

Fa menor disse...

Uma delícia ler estes relatos de gente simples!

Beijinhos!

Isabel José António disse...

Olá Gaivota,

Texto simples mas muito bonito.

Um grande abraço para si.

José António

Maria Clarinda disse...

Deklicioso...e vou continuar na expectativa do fim do teu conto.Jhs muitos

São disse...

Muito interessante...

Beijinhos, xará!

M@ disse...

Olá Gaivota vim fazer uma visita já não vinha aqui à bastante tempo.
Ás vezes não dá para fazer visitas e postar pois tenho a familia para cuidar e estive de férias também.
Pelos vistos pela Nazaré vocês divertem-se...ainda bem.
Boa semana
Manuela

Isa disse...

Hoje estou aqui por causa do Vicente!
A 25 faz um mês? Verdade?
Beijinhos para ele.
Beijo.
isa.

gaivota disse...

vicktor
fico contente por seguires o romance dos "nossos dias"
ando com pouco tempo...
beijinhos

gaivota disse...

fotos-susy
obrigada pelas palavras vindas daí de longe!
fica bem, linda
beijinhos

gaivota disse...

pois somos... pobres de nós...
gatos!
beijinhos

gaivota disse...

fa menor
gentes simples que sabem contar histórias...
beijinhos

gaivota disse...

isabel josé antónio
é um "romance" daqui da terra, das nossas gentes, ainda falta muito...........
beijinhos

gaivota disse...

maria clarinda
o conto não é meu... é da francelina vieira, uma senhora "paleca" mas que desde menina que está aqui na praia...
é grande, vou contando nas palavras dela!
beijinhosssssssssss

gaivota disse...

são
ainda falta muitooooooooo
vou contando, nas palavras da francelina!
beijinhos

gaivota disse...

m@
manuela, a gente diverte-se, é terra de diversão, de convívio, de simpatia, de se estar bem!
o romance ainda vai durar...
beijinhos

gaivota disse...

isa
és uma lindaaaaaaaaaaaaaaaaa
é 1 mês, sim, dia 25, está tão lindooooooooooooooooooo
obrigada!
beijinhossssssss

Lilá(s) disse...

Desculpa lá mas, já estou á espera da continuação.
Bjs

gaivota disse...

lilá(s)
obrigada, vai devagar, que o tempo "foge" e o romance é grandito!
beijinhos

Lena disse...

A Francelina tem mesmo aquele estilo, aquela maneira de nos contar a vida dessa época.

Vamos aguardar...

beijinhos

elvira carvalho disse...

Continuo encantada com esta história.
E aguardando a continuação.
Um abraço

gaivota disse...

lena
pois tem, bem sabes pois também a conheces!
beijinhos
- ainda falta muito -

gaivota disse...

elvira carvalho
vai indo devagarinho, tenho "alguns entraves" pelo caminho...
beijinhos