sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Antes da Nazaré...

Pelourinho da Pederneira, antiga Câmara Municipal - século XIX

Antes da Nazaré já existia a Pederneira

Já existia a vila da Pederneira ainda o Sítio não era povoado e, aonde hoje é a Nazaré, era só mar. Havia, no lugar que existe hoje o cemitério, a Igreja de Santo André.

Havia grandes moradias onde habitava gente muito importante, a Câmara era na Pederneira e os Calafates que faziam grandes embarcações, tais como as Naus que partiram para os nossos descobrimentos.

Com o Snr. D. Vasco da Gama partiu da Pederneira o Mestre Bastião Fernandes, do qual a terra ainda hoje se orgulha, e perpetua o seu nome no largo.

Através dos tempos sempre houve raparigas lindas na Pederneira. Havia um grande mercado, onde se vendia de tudo e as gentes das redondeazs se vinham abastecer.

Há quase cem anos uma família abastada, para a qual trabalhava muita gente, tanto nos campos de cultivo, como nos pinhais, e até apascentando os seus gados. Tinha também em casa pessoal para o trabalho doméstico, era mesmo gente de posses, mas a sua maior riqueza era a sua única filha.

A Ana, à qual eles tinham medo que o ar lhe chegasse de tão bela e elegante que era, tinha uns cabelos loiros encaracolados e uns olhos azuis maravilhosos, uma pele branca e rosada, como raramente se via. Boa menina e muito prendada, muito educada e simples. Todo o pessoal gostava dela. Só saia de casa com os pais para ir à missa ao domingo.

Era dia de mercado.

Barbosas, Louraços, Leais, Escolásticos, Sales, Serradores, Ciprianos, foram sempre famílias laboriosas das mais antigas da Pederneira e que vendiam no mercado os produtos do seu trabalho. Vinha também gente do Valado e da Cela e de outras localidades vizinhas ao mercado, uns para vender e outros para comprar, era dia de muito movimento.

Quando a Ana passou com os pais para a missa, ficou toda a juventude masculina de boca aberta, ela deveria ter os seus dezasseis ou dezassete anos e era de facto uma beleza.

O pai, muito vaidoso da sua filha, olhava para todos, com olhos ameaçadores. O João, rapaz muito pobre mas dos mais belos e garbosos das redondezas, tinha vindo com a mãe vender os seus produtos hortícolas, disse: -Não fui ainda à missa, vossemecê não pode ficar um bocadinho a tomar conta da venda, para eu lá ir? -Podes sim, querido filho. Vai lá com Deus. Fazes bem. Reza por mim e por alma do tê pai, que o Senhor tenha no seu eterno descanso. -Está bem. Eu rezo!

E lá foi.

Ao entrar na igreja já estava a Ana e os pais sentados nas poltronas laterais, os seus olhares cruzaram-se pela primeira vez, pois ele nunca tinha visto aquela menina tão bela, nem ela o tinha visto alguma vez por ali.

João ajoelhou-se e rezou, antes da missa começar, pelo pai, pela saúde da mãe e que Deus os ajudasse, pediu a Deus também que lhe afastasse a vista daquela bela visão, que o estava a transtornar e a distrair.

Por seu lado, a Ana estava com o mesmo problema e mais um: o receio de que os pais se apercebessem de algo, pois ela sabia que eles sonhavam com um casamento rico para ela, mesmo sem a consultar, já tinham feito a sua escolha.

Ana sentia-se constrangida, pois a mãe estava sempre a gabar as qualidades do Ildefonso, na presença dela, que, coitada, ia fingindo não ouvir. Tentou concentrar-se na missa, mas foi muito difícil pois a atração foi muito forte, de parte a parte.

Ao fim da missa, na bênção que todos recebem e se benzem, ele, como há ainda muita gente que o faz, benzeu-se e deu um beijo na mão, e, ao fazê-lo, olhou-a e ela sorriu.

João saiu da igreja e afastou-se para um lugar onde a pudesse ver sem ser visto. Quando sairam, foi apreciando ao longe para onde iam.

A mãe já tinha feito a venda e estava a arrumar os cestos quando ele chegou.

-Atão filho, a missa foi cantada? -Não senhora, nha mãe. Mas foi a missa mais linda da minha vida! -Atão, vamos imora. Ainda vou cozer umas couvinhas com toicinho, enquanto tu te lavas. Vá, ala que se faz tarde!

João foi buscar a carroça, deixou o burro comer folhas de couve que sobraram, e ele deixou o chão todo limpinho. Não é sempre se comem couves frescas, erva e palha tinha ele lá com fartura. E lá chegaram ao Casal Mota. Da sua casinha modesta toda caiada de branco, avistava-se todo o mar, a praia da Nazaré, o Sítio e a Pederneira. É das mais lindas vistas que há! João foi dar água ao animal e pô-lo no curral, enquanto a mãe foi tratar do "almoço" que lá se chamava jantar, à tarde a merenda e à noite, a ceia. A mãe teve que o chamar, pois ele, quando acabou de tratar do animal, foi para a eira, que ficava ao lado da casa, e ficou a olhar para a Pederneira. -Atão... filho, na vens comer?

Na me digas que nunca apreciaste essas vistas senão hoje? Olha que poucos têm a sorte de viver num lugar igual ao nosso. O tê paizinho que Deus tem, dizia: que daqui se via o mundo inteiro! Isso, era o mundo dele, e num instante tudo se acaba... Agora o meu mundo és tu, o que mais quero da vida é ver-te feliz.

-Isso só Deus é que sabe!...

- Hoje, acho que tás triste! O que é que tu tens, filho? Olha que és um bom filho, és o moço mais lindo e jeitoso que se vê por í, podes escolher a melhor moça, que de certeza nenhuma te rejeita!...

-Isso é que não se sabe!... Vocemecê vê-me com os olhos de boa mãe, os pais das outras vêm as filhas com os olhos deles. Cada qual para os seus é o, ou a, melhor!

(Francelina F. Vieira) voltarei a este romance num próximo dia...

30 comentários:

Filoxera disse...

Boa prosa, esta narrativa.
Vim aqui parar através do comentário no blogue À Beira do Sol.
Voltarei. Beijinhos.

São disse...

Oh, linda, não demores: quero saber como acabou...

Feliz fim de semana.

Belisa disse...

Beijinhos estrelados.
Voltarei!

gaivota disse...

filoxera
é uma mulher da praia, com "veia" e já editou uns 6 livros, entre poemas, narrativas, romances,
é uma querida amiga!
beijinhos

gaivota disse...

são
devagar........... tenho mais uma coisinha para "brincar", mas voltarei!
beijinhossssssssssss

gaivota disse...

belisa
obrigada, volta sempre!
beijinhos

Princesa disse...

Obrigado pela visita
Bonito post para hoje adorei

"Não corra atrás da felicidade, porque em sua corrida louca, ela pode passar e você nem ver".

Bom fim de semana
Um beijo

Vicktor disse...

Querida Gaivota

Que bonita estória... onde o amor e a paixão andam de mãso dadas com as histórias da Pederneira...

Parabéns à autora e gratidão para ti pela partilha.

Beijinhos.

António Machado disse...

Cara Amiga Gaivota,

Já actualizei o meu blogue sobre vegetarianismo, com os conceitos básicos sobre o mesmo. Se quiser pode espreitar...

Bom fim de semana.

António Machado

RETIRO do ÉDEN disse...

Ex.,
Para este 1º.Domingo Dia do Senhor para o teu querido e lindo nétinho...neste Mundo Terra:

«Vesti-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo»...

para ele e tua linda e amorosa família.

Obga.pela visita e comentário.

Depois, virei com tempo, ler o teu texto que me pareceu excelente para nosso conhecimento e cultura geral.

Beijos e fiquem na Paz de Deus
Mer

O Profeta disse...

As cordas de uma viola vibraram
Beijaram os dedos ao tocador
Uma nota fugiu ao encontro da saudade
No refrão a canção tinha a palavra amor

Nunca ouviste a palavra amor
Nunca te encontrou a nota de uma violoncelo
Nunca se rasgou o teu deserto de silêncios
Nunca um som te fez sentir o quanto é belo

Boa semana

Doce beijo

Eduardo Aleixo disse...

Gaivota

É uma estória linda que me faz lembrar os tempos em que eu ia à missa e me punha a sonhar com as Anas e pensava que era pobre demais para elas! A nossa mocidade tem muito a ver com a estória que contas. Havia os pobres e havia os ricos. Tu sabes. Muito podia dizer. Gostei. Os tempos mudaram. Ainda há ricos e pobres. Mas a mentalidade mudou...
Bem hajas, querida amiga.

lua prateada disse...

Realmente está maravilhoso e estva á espera do fim, é uma daquelas histórias de Romeu e Julieta lindo amor, espero que esta não tenha o mesmo fim e sejam felizes para sempre...
Beijinho prateado

SOL

Lena disse...

Ta bém contada e fiquei sobre minha fome.......
Mais um bom livro da Francelina.
Um bom historico sobre a Nazaré também.
Parabéns a Francelina e a ti de nos divulgar esta passagen !

Beijinhos

Vieira Calado disse...

HÁ SEMPRE UMA HISTÓRIA

POR DETRÁS DA HISTÓRIA

QUE SE CONHECE!

E É SEMPRE MUITO INTERESSANTE.

BOM FIM DE SEMANA

gaivota disse...

princesa
obrigada, vou continuar mais um pouco da história da minha amiga francelina..
beijinhos

gaivota disse...

vicktor
obrigada, e dão-se as mãos nas simpplicidades dos seres...
há mais...
beijinhos

gaivota disse...

antónio machado
obrigada, lá irei, mas sei bastante... um das minhas filhas é lacto vegetariana, outra é licenciada em naturalogia e... em casa há de tudo!
eu gosto, mas como de tudo...
beijinhos

gaivota disse...

retiro do éden
obrigada, mer, o Senhor estará sempre presente nas nosas casas acompanhará e protegerá os meus (nossos) anjinhos todos
o romace vai seguir, a francelina é umamulher simples, "adoptada" aqui na praia, mas muito nazarena!e escreve umas coisinhas simples e lindas
beijinhos

gaivota disse...

o profeta
com as tuas palavras a iniciar mais um dia, um domingo, neste quase fim de verão...
obrigada
beijinhos mágicos

gaivota disse...

eduardo aleixo
pois era... nesses tempos eu também ia à missa e à catequese, havia os joãos e as anas...
ricos e pobres, como os tempos mudam! e/ou certas mentalidades...
beijinhos

gaivota disse...

lua prateada
vamos lá ver o fim... o livro é grande, vou transcrever mais um pouco...
beijinhos

gaivota disse...

lena
já sabias que saía agora em agosto o livro da nossa amiga... logo que pude e regressei à nazaré, após o nasciemnto do meu bebé, fui buscá-lo e contar-vos esta história...
já aí mora a saudade!
beijinhossssssssssss

gaivota disse...

vieira calado
pois é, há sempre alguma coisa mais, além do que se conhece...
mas era ssim, antes a Nazaré!
beijinhos

Mariz disse...

Salvé Amiga

Claro que podes ir buscar...mas primeiro pretendo alertar-te - e vou fazer uma chamada de atenção nos coentários seguintes - é que aquele post nada tem a ver com a "partida" da minha mãe, mas sim, com a NOSSA!
Ou seja: morrer para a personalidade, para o ego, desapegar emoções, paixões e tudo o que nos sobrecarregue para que, quando o nosso dia soar, seguirmos viagem mas com o menos carga possível!
Era um alerta, apenas!Daí a figura, onde se lê: "a entrada na eternidade é um acto solitário"!
Depois o vídeo, relata a preceito o que realmente se passa no Caminho..na tentativa de se chegar LÀ!!!
No final é que agradeci a todos os que comentaram no post dedicado á minha mãe.

Não insisti mais no assunto....porque agora só conta para mim e não para massacrar a blogofera!
O post era portanto, para todos nós!

beijo meu carinhoso

Ah!
Gostei demais deste conto...é verídico?

Mariz

gaivota disse...

mariz
sim, é um romance baseado numa história verídica, daqui das gentes da nossa praia, vou continuar hoje, mais um pouco...obrigada
beijinhos

Lilá(s) disse...

E por aqui passei uns bons minutinhos...
Bjs

gaivota disse...

lilá(s)
e vai passando... a história é grandeeeeeeeee
beijinhos

poetaeusou . . . disse...

*
um jino
para a Francelina,
,
pilipares
,
*

gaivota disse...

poetaeusou
acordaste!?!?!?!?!
já funcionaaaaaaaaaaaaaaa
pilipares com sotaque açorianooooooooo