terça-feira, 5 de agosto de 2008

À sombra do Promontório (III)

Venham folhear o livro, ler o resto da história e saber como foram (e são) as vidas das gentes da Nazaré
A praia nos dias de hoje

A praia no antigamente (foto de arquivo)
Chegando a casa a Joaquina disse aos filhos:
- Quere que vocêses saibem, que aqui adonde me tão a ver, já sei, quem foi o meninede pé calçadeque quemeu os óve com vocêses! A mãe dele deu-me o denhêre deles, mas ele, tem que le pagar do migalhêre dele, acté smanha tôde, cvande sóbér que fica de castigue e na vai brincar oite dias, e séla for fazer quêxa é Sr. Elpide, vocêses todes vão prêses, o filhe dela e tude! Pávia de vocêses rombarem-me os óves, é co filhe dela rombou o açúcre.E agora?!!! Vai tude prêse!... na quere saber.
E, era assim, que se iam passando os dias.
O Ti Manel, sempre que não ia ao mar, ia sachando o milho e o feijão, que já estavam bem bonitos e se viesse uma chuvinha, teria ali feijão e milho para todos comerem. A mulher quando ia ao rio dos moinhos, levava uma saquinha de milho que trocava por farinha; Ia cozendo umas broas e, lá iam governando a vida, sem se alargarem muito, pois não dava para brincadeiras, cinco bocas a comer sem ninguém ir ao mar.
Era assim a vida de toda a gente na Nazaré, que vivia da lida do mar, e quando o mar estava ruim, ou, mesmo manso, não pescavam nada. Se não tivessem qualquer coisa, que ajudasse a sobreviver, era muito complicado. Havia mulheres, que iam recolher lavaduras nas casas, onde deixavam um balde com tampa e, as pessoas em vez de deitarem os restos da comida para o lixo, despejavam nesse balde, que as donas do respectivo, todos os dias recolhiam e, levavam em latões à cabeça para fora da localidaded onde tinham a corte com os seus porquinhos, que iam criando, e vendendo. De vez em quando, quando havia um pouco mais de fartura, lá matavam um porquito, para terem na salgadeira, tempero para panela e, uns ossinhos para rapar, em cima das couves; e, assim iam vivendo.
O Ti Manel lá ia tratando das suas ervilhas e das suas favas, das quais tiravam algumas para comer, pois as outras, a Ti Joaquina tratava de as ir oferecer às senhoras que já eram freguesas habituais, e também das suas batatinhas novas.
-Ah! Migas, iste quem na se sóber governar e na tiver o sê celeire e uns testões na alzebeira, tá desgraçade, cande a costa tá negada... Nunca ninguém se viu vingade de quem é popáde!
E os miúdos lá foram crescendo, iam à escola, e, até eram bons alunos, pois a mãe, embora não sabendo ler, queria que os seus filhinhos não fossem como ela, que, se não fosse a esperteza que tinha, era uma infeliz por não saber ler. Qualquer papel que lhe parecia, não podia rasgar sem dar a sua vida a saber. Isso é que lhe doía; por isso, os seus meninos ou a bem ou a mal, a quarta classe, tinham que fazer!...
- O mê João já anda na quarta, o mê Zé, na tercêra e o mê Tónhe, na sigunda. Inté agora, ainda na ficarem pa trás, vames lá ver daqui pá frente. Eu digue-lhes tude cante é mau, mas graças a Deus nunca precisarem de porrada, candem andem diretinhes que nem um fuse! Eu ameáci-os co senhor Elpide e ca cadeia da Admestração do Concelhe, e eles tem mêde que se pelem, assim é que é!... Respeitinhe é munte benite. O mê homem nunca diz nada, acha que os filhes dele, são os melhores do munde.
- Ah! Jôquina, se tu visses o cos otres piquenes, da indade deles, fazem à gentes lá em baixe, cande a gentes trazemes algum pexinhe pá terra?!!! Rombem logue da rede e fogem, assobem pos candieres arriba, e com ganchetas rombem pêxe às cabazeras, são malcriades e dizem tude chei de asnêras. São diabes, aqueles piquenes da borda d'áuga.
- Olha é per essas e per ôtras, é cós nosses na vão lá pra báxe, tão aqui munte bem! Quere dar um grite per eles, e eles óvirem-me logue, queu na goste de dezer as coisas muntas vezes. E agora diz-me lá tu Manel, se achas ôtres iguais aos teus? É munte bom eles terem respeite; quem na se dá ó respeite, na é respeitade.
- Tens rezão melher! Ninguém te tira a tu rezão, tu é que sabes! Tu é que terminas, aquile que tu fazeres tá bem feite!

domingo, 3 de agosto de 2008

À sombra do Promontório (II)




-Eu quere saber aqui, seus desgraçádes, quem é que me rombou os óves, queu já prometi à senhora! Na sai daqui ninguém vive, sus óves na aparecerem!...
Chamavam-se respectivamente: João, Zé e Tónhe.
O mais novo, o António, o tal a quem na Nazaré toda a gente chama Tóne, tentou desculpar-se e disse à mãe:
- Ah! Nha mãe; um Piquene qué dos senhorites trôce à gentes um cartuche com açúcre, e, disse ca gente tinhames óves e insinô a gentes quemèque se fazia e a gentes quemêmes todes; que foi um regale. Chamem-se gemadas! Ah! Mãe é tão bom!...
- O qué queu agora vou dezer à senhora??!! Seus desgraçádes, seus gulóses! Vocêses são a vergonha da nha cara! Agora têm que me dezer quem foi esse menine de pé calçade, que vei prá qui com indeias de gente rica, ca gentes na pode ter, nem per sonhes, nem per pinsamentes! Cante mais pa me irem ós óves!!!?
Ah! Menhés!... Olha que foi ó açúcre à mãe e, a fartura é tanta, que ninguém deu por nada! Isto é falta de indecação!...
Vocêses por hoje passem! Mas na tenhem ilesões, que se voltem a fazer seja o que for, sem minha alterização, troce-vos o pescôçe. Xprimentem!!! Ah! Menhés!!! Menines fines... Gemadas levem eles, se se meterem noutra!... Mas quem é atão o menine? Ô quere sabêre?!!!
- Ah mãe... O menine é o Zé e tem rôpa nova e anda calçade...
- O Zé dôm eu, a vocêses os três! Não há mais brincadeiras com Zés pa ninguém! A-ca-bou-se!!!
No outro dia lá foi a Joaquina a casa da senhora, mas em vez de levar quatro queijos e uma dúzia de ovos, levou seis queijos e quatro ovos.
- Não foi esta a encomenda que eu fiz, mas não faz mal - disse a senhora
- Ah minha senhora desculpe; mas ô ande maluca, cos desgraçádes dos meus três filhes, nunca me tinhem feite uma partida destas, foi p'ra lá um menine na sê de quem, levô açúcre e os meus forem ao ninhe das galinhas e forem todes fazer gemadas. Já les fiz uma guerra!!!
- Açúcar neste tempo? Mas quem é que tem açúcar em tempo de racionamento?
- Ah nha rica senhora... Eles na ma sabem xplicar quem é o menine, mas eles na são mentiroses, queu ameace-os que les corte a língua se me mentem: Dizem que o menine é o Zé e anda calçade.
- Espere só um inatantinho por favor!...
A senhora foi à dispensa e deu imediatamente pela falta do pacote de açúcar que era de meio quilo e, em tempo de racionamento, ela estava a guardá-lo para o fim-de-semana. Chegou-se ao pé da Joaquina e disse-lhe:
- Olhe: já sei quem foi ajudar os seus piquenos a comer as gemadas. Deixe-o vir da escola, que terá de me explicar onde meteu o açúcar. E, você desculpe. Eu já lhe dou os três mil reis da dúzia dos o vos, mas ele vai ter que pagá-los e mais o açúcar, do mealheiro dele, que é para aprender que essas coisas não se fazem!...
Diga-me então, quanto custam os seis queijos e os quatro ovos
- Olhe, ah nha rica senhora os quêjos são seis mêrréis e os óves ópois eu trague mais dois e paga a meia dúzia queu na sê fazer essas contas.
Mas à rica amiguinha, olhe queu na sabia quéra o sê menine. Pa alminha de quem lá tem, na bata ó menine!...
- Não!... eu não lhe bato! Mas juro que ele nunca mais se vai esquecer disto.
- Atão?!!! A senhora é que sabe. Indecação é munte bonite. Eu já fiz a nha guerra ós meus! De certeza tamãe na se esquecerão tão depressa. Munte obrigadinha por tude e mais uma vez desculpe.
Já se afastando ia falando sozinha:
- Oha o queu fui armar ca criatura! Mas olha; já tá já tá! O piquenezinhe tamãe tem c'aprender, que certas coisas na se fazem.
(continua)
Francelina

sábado, 2 de agosto de 2008

À sombra do Promontório (I)

























Quando a Nazaré ainda era toda branquinha com casinhas de rés-do-chão e sótão e o edifício maior que havia, era a Colónia Balnear; e, daí para cima, não existia nada mais que cabanas de madeira, que albergavam famílias inteiras; não deixando de nos lembrar das galinhas, porcos, coelhos e cabras que também coabitavam com eles, nuns palheiros encostados às respectivas cabanas habitacionais e que eram cercadas por um quintalzinho onde a criação andava à solta durante o dia. Tinham também uma zona envolvente onde cultivavam batatas, ervilhas, favas, couves, milho e feijão, que lhes ajudavam a sobreviver, pois quando a costa estava negada; por vezes, Invernos inteiros, sem ninguém ir ao mar, era do que viviam, juntamente com uns queijitos, que a matriarca da família, mulher séria e muito asseada, ia vender àquelas freguesas, que já tinha certas; cobertos com um paninho mais branco que a neve; lá ia a Joaquina bater à porta, de quem ela sabia, que tinha dinheiro para lhos pagar logo; sim! Que o dinheiro era preciso para o pãozinho! Se a Senhora quisesse, também tinha ovos fresquinhos, que amanhã lhos traria, no caso de os querer, e são a quinze tostões a meia dúzia...
- Olhe! Traga-me então amanhã: quatro queijos e uma dúzia de ovos.
- Sim, senhora. Pode ficar descansadinha, que eu trague a maior fresquidão do munde!
Quando chegou à cabana foi ao linheiro, que era o nome que se dava ao ninho onde as galinhas punham os ovos, e, não estava lá anda...
(continua)
Francelina Vieira

quarta-feira, 30 de julho de 2008

NAZARÉ és o meu tema




Fotos de domingo, 27.julho.2008, 12.30h
cheguei de oviedo e encontro a minha praia à minha espera, linda, como o sol!
cada vez mais linda... e quem diz que o mar da nazaré é um cão, e sujo...???


Nazaré és o meu tema
minha tinta, meu poema
meu caderno de escrever
minha musa inspiradora
com beleza a toda a hora
terra que me viu crescer
Vim p'ra cá de pequenina
ainda era uma menina
fiz-me jovem e mulher
aqui amei e sofri
também casei e sorri
e, seja o que Deus quiser!
Nazaré tu és tão linda!
e se não me gozo de ti
só quando saio e cá volto
é que sei o que perdi
Francelina - Nazaré é Poesia

domingo, 27 de julho de 2008

TORNEIO DE INFANTIS EM OVIEDO






Os infantis dos s.l.b. foram convidados a participar num torneio de hóquei em patins, com 4 equipas espanholas e mais uma de frança, e... ganhámos!
Aqui temos o nosso capitão de equipa, o André a erguer o troféu do 1ºlugar, uma réplica à Catedral, muito bonito!
portaram-se lindamente os meus meninos, sairam sempre vitroriosos sem um empate sequer!
boas perspectivas para o futuro! (escuso-me a falar das arbitragens nestes jogos...)
Parabéns meus meninos lindos, bem comportadinhos e apoiados por todos nós e famílias que os acompanharam durante uma semana nas Astúrias.
Os jogos realizaram-se da parte da manhã, deixando o pavilhão livre para as selecções de séniores diputarem o 48º campeonato europeu, o que já não foi de tão feliz resultado para a nossa selecção, infelizmente... jogámos muito bem e sempre com fair play, em todos os jogos, mesmo neste último contra a espanha, a equipa anfitriã.
Um golo não validado, passou acima da altura permitida, disse o árbrito...
A bancada de apoio à nossa seelcção, com uma belíssima claque, para uma equipa fantástica, portugal allez, portugal allez...
bandeiras e cachecóis e vozes sempre afinadas em grande apoio aos nossos rapazes!
Agora, boas e merecidas férias para todos, daqui a um mês começaremos a "luta" e os horários dos treinos...
um beijo enorme com muito carinho para cada um de vocês, pequeninos e para os grandes, também, obviamente
São todos lindos!
Parabéns!!!

quinta-feira, 24 de julho de 2008

OVIEDO












Oviedo, no coração das Astúrias onde corre o Campeonato Europeu de Hóquei sobre patines, e também um torneio entre 4 equipas espanholas, 1 francesa e outra portuguesa, o s.l.b., em infantis, meninos de 10 e 12 anos...

E estamos muito bem até agora, os nossos séniores vão passando jogo após jogo e vencendo... os pequenitos, com igual postura! também vão ganhando. Vamos esperar que os jogos que faltam corram bem e que ganhemos...

Bem, como em toda a Espanha, as noites são animadíssimas, ruas, bares, restaurantes cheios de gente, de conversa, música, animação!

Sem poder deixar de ser, porque não uma "fabada asturiana y una copa de sidra"? É fantástica a habilidade ou o treino que estes funcionários têm para deitar a sidra nos copos, sem olhar nem entornar... Um dia vou treinar, e ver o jeitinho aqui destas mãos...

terça-feira, 22 de julho de 2008

MÃE NAZARENA



Uma homenagem à Mulher, à Mãe Nazarena, junto ao Centro Cultural, na Praia da Nazaré.

Vestida com traje de trabalho, tráz um filho pela mão e outro de colo, olha desesperadamente a linha do horizonte, o mar, esse mar que lhe dá de comer a ela e aos filhos e ao seu homem, na expectativa de ver o seu barco, que virá das lides do mar, trará o ganho e o sustento da família. À cabeça tem o peso da vida da sua terra, a carga da responsabilidade do dia a dia, representada pelo casario da praia, sítio e pederneira.

É ela quem comanda a vida, trata de tudo, e de todos, quem governa a casa e o ganho do seu homem, mesmo quando ele está em terra.

"Olhavam sempre para trás antes de virar a esquina, porque a sua mãe ficava sempe à janela para lhes acenar e sorrir. De alguma forma, parecia que não poderiam suportar o dia sem aquele gesto, porque, fosse qual fosse a sua disposição, o último olhar daquela face materna era, sem dúvida, como a luz do Sol" - Louisa May Alcott